quinta-feira, 22 de maio de 2008

Morreu Irena Sendler

polonesa que salvou 2.500 crianças judias
 
 
 
 
 
Irena Sendler nasceu na Polônia em 1910, num vilarejo chamado Otwock,
 
a 23 quilômetros de Varsóvia. Seu pai, Stanislaw Krzyzanowski era um
 
médico que atendia a uma grande comunidade de judeus pobres e era
 
ativista do Partido Socialista Polonês (PSP). Suas idéias influenciaram
 
fortemente a jovem Irena, que estudou literatura polonesa e pertencia à
 
União da Juventude Democrática, (de esquerda) e acabou por filiar-se
 
também ao PSP.
 

Irena trabalhava como administradora do Departamento de Bem-estar
 
Social de Varsóvia, responsável pelos refeitórios comunitários da cidade,
 
quando os alemães invadiram o país, em 1939. Graças a ela os
 
refeitórios não proporcionavam apenas comida, assistência,
 
financeira e outros serviços para órfãos, anciãos e pobres,
 
mas forneciam roupas, remédios e dinheiro a famílias judias.
 
Para evitar as inspeções, elas eram registradas com nomes
 
cristãos fictícios e diagnosticadas como portadoras de
 
doenças graves e muito contagiosas, como o tifo e a tuberculose.
 

Mas em 1942, com a designação de uma área fechada para alojar e
 
confinar os judeus, conhecida como o Gueto de Varsóvia, as famílias
 
dos confinadas só poderiam - dali por diante - esperar por
 
uma morte certa. Horrorizada pelas condições em que viviam os
 
 
judeus, Irena uniu-se ao Conselho para a ajuda aos judeus, Zegota,
 
organizado pela resistência polonesa. A jovem foi uma das primeiras
 
organizadoras do resgate de crianças judias. Nessa ocasião,
 
morriam mensalmente no Gueto 5.000 pessoas,
 
de fome, execuções e enfermidades.
 

Irena conseguiu obter um passe do Departamento de
 
Controle Epidêmico de Varsóvia para poder entrar legalmente no Gueto.
 
Ia diariamente com o propósito de restabelecer contatos,
 
levar comida, remédios e roupa usando uma braçadeira com
 
uma estrela de Davi, como sinal de sua solidariedade aos judeus.
 

Persuadir os pais para separar-se de seus filhos era uma tarefa
 
horrorosa para uma jovem mãe, como Irena.
 

'Você pode me garantir que ela sobreviverá?' , perguntavam- lhe os
 
pais angustiados. Mas ela só podia garantir que os pequenos
 
morreriam se ficassem no Gueto; 'em meus sonhos,
 
ainda posso escutá-los chorar quando deixavam seus pais', dizia.
 

Não era fácil encontrar famílias que quisessem dar refúgio
 
a crianças judias. Começou a tirar crianças do Gueto numa
 
ambulância, como vítimas do tifo, mas com o passar do tempo,
 
qualquer coisa: sacolas, latas de lixo, sacos de batatas,
 
caixões, praticamente tudo se transformava em
 
instrumento de fuga nas mãos de Irena.
 

Outros métodos incluíam uma igreja que tinha dois acessos,
 
um pelo lado do Gueto e outro do lado 'ariano' de Varsóvia.
 
As crianças entravam na igreja como judias e saíam como cristãs.
 

Irena conseguiu recrutar pelo menos uma pessoa em cada um
 
dos dez centros do Departamento de Bem-estar Social.
 
Com essa ajuda, elaborou centenas de documentos falsos
 
com firmas fictícias, atribuindo identidades temporárias às crianças judias.
 

Mas era mais fácil escapar do Gueto que sobreviver no lado 'ariano'.
 
O resgate de uma criança requeria a ajuda de pelo menos dez pessoas.
 
As crianças eram levadas para unidades de serviço humanitário e daí
 
para um 1ugar seguro, em geral casas, orfanatos e conventos.
 
'Enviei a maioria das crianças para instituições religiosas',
 
lembrou, 'sabia que podia contar com as freiras'.
 
 
Irena também teve muita ajuda para abrigar crianças maiores: '
 
Ninguém se recusava a aceitar uma criança', disse.
 

Ela anotava, por meio de um código, os nomes verdadeiros
 
dos meninos, meninas e suas novas identidades.
 
Esses registros foram conservados em garrafas enterradas
 
sob uma macieira num pátio vizinho ao QG alemão.
 
Ela tinha a esperança de, algum dia, poder desenterrar os frascos,
 
localizar as crianças e informá-las sobre a sua origem.
 
As garrafas continham os nomes de 2.500 crianças.
 

Um dia os nazistas descobriram suas atividades e em 20 de outubro de 1943,
 
Irena foi presa pela Gestapo. Ela era a única que sabia os nomes e
 
endereços das famílias que albergaram as crianças judias.
 
Foi brutalmente torturada, mas não cedeu, quebraram-lhe as duas
 
pernas, mas a sua vontade e a força foram mais fortes que a dor.
 
Ela passou três meses na prisão de Pawiak e levada ante um
 
tribunal nazista foi julgada e condenada à morte.
 

Enquanto esperava a execução, um soldado alemão veio buscá-la
 
para um 'interrogatório adicional'. Ao sair da prisão, pensando que
 
a tortura recomeçaria, o soldado gritou-lhe em polonês:
 
'Corra!' No dia seguinte viu seu nome na lista dos resistentes executados.
 
Os membros de Zegota tinham conseguido evitar a sua morte,
 
subornando o alemão. Irena continuou trabalhando com uma identidade falsa.
 

Quando a guerra acabou, desenterrou as garrafas e usou as notas
 
para encontrar as 2.500 crianças, reuniu as que pode com seus parentes,
 
disseminados por toda a Europa, mas a maioria havia perdido suas
 
famílias nos campos de extermínio nazistas.
 

As crianças só a conheciam por seu codinome, Jolanta. Mas anos
 
depois, quando sua fotografia saiu num jornal noticiando que fora condecorada
 
por bravura durante a guerra, 'um homem, um pintor, me telefonou',
 
contou Irena, 'lembro o seu rosto, foi você que me tirou do Gueto',
 
disse e acrescentou: 'recebi muitos telefonemas como esse'.
 

Irena Sendler não se considerava uma heroína.
 

Jamais reivindicou qualquer crédito por suas ações.

'Podia ter feito mais', disse e finalizou: 'a mágoa por não
 
tê-lo feito me perseguirá até o dia de minha morte'.
 

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